Dom Pedro José Conti -
O rei distraído
Um rei queria entrar no caminho da sabedoria budista. Apresentou-se ao mestre e formulou o seu pedido. Conhecendo-o, o mestre assim lhe falou:
- Majestade, o senhor nunca conseguirá entrar no caminho da sabedoria se não superar a sua falta de atenção.
- Como pode dizer isso? Não estou dando suficiente atenção às minhas obrigações religiosas, ao bem dos súditos e à riqueza do Estado?
- Não é dessas atenções que estou falando – respondeu o mestre.
- Ponha-me à prova – insistiu o rei.
- A prova será bem fácil – disse o mestre – o senhor terá que responder: “acredito” a qualquer afirmação eu faça por mais boba que lhe possa parecer. Combinado? Então, vamos fazer o teste.
- Eu sei voar acima das estrelas – disse o mestre.
- Acredito – respondeu o rei.
- Sou tão sábio que a minha sabedoria vale por mil pessoas.
- Acredito – respondeu o rei.
- Eu sou um mentiroso.
- Acredito – respondeu novamente o rei.
- Eu estava presente quando o senhor nasceu.
- Acredito – foi a resposta do rei.
- Seu pai era um camponês.
- Esta é uma mentira – gritou o rei.
O mestre o olhou com compaixão e disse:
- Viu? O senhor está tão distraído que não consegue dizer “acredito” sem o menor preconceito. O senhor está muito atento consigo mesmo. A verdadeira atenção é outra coisa.
A discussão é antiga e nunca deixará de ser acirrada. Em ambos os lados têm pré-conceitos. Para os extremos defensores dos interesses materiais, ter fé em Deus é fugir dos compromissos da história e, portanto, os cristãos – por exemplo – seriam companheiros de pouca confiança na luta para a transformação da sociedade. Sabemos que não é verdade. Muitos cristãos – e de outras religiões também – deram a vida por causa da justiça e da fraternidade.
Do outro lado, os que têm fé em Deus pensam que falta alguma coisa nos outros, como se o horizonte de tanto esforço acabasse por aqui. Como confiar em quem pensa apenas no domínio das coisas e nos poderes deste mundo? Essa maneira de pensar também está errada. Ao longo da história humana, muitas pessoas, apesar de se reconhecerem sem fé em Deus, lutaram pela paz e pela dignidade humana; homens e mulheres de boa vontade e de coração sincero.
Talvez estejamos perdendo tempo, ficando “parados” em discussões viciadas por ideologias. Ainda hoje, os inimigos do bem da humanidade e da paz são o poder e a ganância. Todos, homens de fé ou não, somos tentados por ambições desmedidas. Todos precisamos sempre lutar para revisar as motivações mais profundas da nossa vida.
Ainda hoje precisamos conhecer melhor quem é o Deus-Pai que Jesus nos revelou. Sem preconceitos. Da mesma forma precisamos buscar o sentido da história da humanidade e do planeta terra. Sem preconceitos. Mas também sem tantas distrações que nos fazem perder tempo na luta contra todos os males e as injustiças que ainda afligem esta pobre humanidade.
Roselaine B. Ferreira da Silva -
Ansiedades comuns que os pais vivem (parte 2)
Continuando com o assunto da semana passada, em que eu expunha que amar não é tão fácil assim, falei no fato do filho estar vinculado aos pais. Quando falo nisto, quero dizer um sentimento de pertencimento e aceitação que os pais devem passar ao filho sempre! Porque isto vai dar segurança a ele. E este também é um sentimento que se aprende; ele não nasce pronto...
Um casal quando se torna pai e mãe acaba por mudar o tipo de vínculo mantido até então, pois agora eles não são mais somente marido e esposa, mas, também, pai e mãe. Conseqüentemente, o parceiro vê ao outro de uma forma que não via antes: ou mais amoroso, ou mais rígido, ou mais inseguro, etc. Creio que seja oportuno registrar aqui que o período mais difícil na relação pais e filhos é quando a criança se transforma num ser exigente que parece devorar toda a energia e atenção dos pais.
Quando as crianças passam o dia fazendo bagunça, derramando tudo o que bebem, fazendo birra, não deixando ninguém conversar, é óbvio que os pais se irritam! Mas, enquanto os pais se desesperam, gritam e esbravejam com o filho, é bom lembrar que não é ele, mas o que ele faz que os deixam loucos de raiva! Nunca devemos dizer que a criança é má por fazer tal coisa, que não gostamos dela por isso e que a mandaremos embora ou que nós a deixaremos!
As crianças precisam saber que são amadas mesmo quando são menos amáveis! Isto significa dar segurança a ela, pois ela precisa sentir-se protegida e que “a arte” que ela faz tem uma conseqüência, mas não desastrosa a ponto dela não sentir-se mais amada. Segurança significa fazer com que a criança se sinta protegida contra a sensação de sentir-se abandonada, infeliz e com medo. Isso está ligado, naturalmente, ao amor; este que é essencial ao desenvolvimento dos filhos.
A criança deve registrar em seu psiquismo que há sempre alguém que gosta dela, faça ela o que fizer, e que há um lugar ao qual ela pertence! Por isto, digo que amar não é tão fácil, pois sentimentos opostos, como raiva, impaciência e desgosto, nos impedem, muitas vezes, de proporcionarmos segurança a uma criança. Mas, se soubermos reconhecer isto e oferecer aos nossos filhos a capacidade deles sentirem-se amparados por alguém, já é um bom passo dado!...
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