A trajetória dramática, mas sobretudo vitoriosa, desse mineiro autodidata, self-made man e ícone da luta contra o câncer é contada com riqueza de detalhes por Eliane Cantanhêde em José Alencar - Amor à Vida (Editora Sextante).
Jornalista e colunista da Folha de São Paulo desde 1997, a autora conversou com o Diário Regional em dezembro do ano passado, quando do lançamento da biografia do ex-vice-presidente da República.
A seguir, reproduzimos alguns trechos da entrevista.
Diário Regional - Por que a senhora aceitou escrever a biografia de José Alencar?
Eliane Cantanhêde – Porque o vice-presidente José Alencar é um personagem muito interessante. É um menino pobre que saiu de casa aos 14 anos com uma malinha de madeira. Ele passou muitas dificuldades. Aos 18 anos pediu para ser emancipado para abrir sua primeira loja. É um homem batalhador que tem uma história de vida muito bonita. José Alencar se transformou num dos homens mais ricos do Brasil e ao mesmo tempo em vice-presidente da República. E também há essa luta dele contra o câncer. É uma coisa que muita gente que tem parentes com a doença se interessa.
DR – As pessoas se espelham na perseverança do vice-presidente nessa luta.
Eliane – É impressionante a perseverança dele. Inclusive eu passei um dia inteiro com ele no Hospital Sírio Libanês numa sessão de quimioterapia e vi como as pessoas o adoram pela sua garra e seu amor à vida que, aliás, é o título do livro.
DR – O livro é fruto, principalmente, das 40 horas de entrevista que a senhora realizou com José Alencar. Como foi sua convivência com ele?
Eliane – A primeira coisa que fiz para o livro, além de fazer um projeto básico, foi ter uma conversa com ele de sete horas e meia no Palácio do Jaburu. Fiquei impressionadíssima, porque era o segundo dia da quimioterapia e ele ficou conversando durante esse tempo comigo, com uma memória impressionante. Ele lembra de tudo. Depois tive outras várias conversas com ele em locais diferentes. Mas também conversei com José Dirceu e José Genoíno e com os irmãos de José Alencar. Também conheci algumas pessoas que não gostam dele e conversei com muitos médicos. Estou quase me tornando médica... (risos).
DR - Por que não consta no livro nenhum depoimento do presidente Lula?
Eliane – O próprio José Alencar telefonou para o presidente Lula pedindo a ele que desse a entrevista. Afinal das contas, não é todo mundo que merece um livro. Era um momento importante para José Alencar. Mas o presidente Lula sempre alegou que estava em campanha e nunca deu a entrevista.
DR - A senhora costuma dizer que José Alencar deu o “pulo do gato” em vários momentos de sua vida. Qual deles merece destaque?
Eliane – Foram vários ‘pulos do gato’. Primeiro aos sete anos de idade, quando ele começa a trabalhar na lojinha do pai como vendedor. Foi aí que ele aprendeu a gostar de tecidos e aprendeu a alma do comércio.
O segundo foi quando saiu de casa. E o terceiro quando ele, um menino de 18 anos, abre a primeira loja. Mas houve os dois grandes ‘pulos do gato’ empresariais. O primeiro foi quando o irmão mais velho dele, Geraldo, morreu e deixou um negócio muito interessante de vendas de tecido em sociedade. E como a mulher dele não entendia nada do assunto, José Alencar foi tomar conta e acabou assumindo o controle do negócio.
O segundo grande pulo foi quando a Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) surgiu. Ela financiava projetos no Nordeste, mas também financiou numa parte de Minas, muito semelhante geograficamente ao Nordeste. Então, o José Alencar conseguiu esse financiamento com o sócio dele, o Luiz de Paula, para fazer a primeira fábrica da Coteminas. Aí pronto, ele se transformou num dos homens mais ricos da América Latina.
DR – No livro a senhora dedica um capítulo sobre a questão da paternidade de uma moça não reconhecida por José Alencar. Quando a senhora o abordou sobre isso, como ele reagiu?
Eliane – Foi uma coisa difícil. Ele tinha passado por uma cirurgia alguns dias antes. Ele estava com um pouquinho de pressão baixa e queda de hemoglobina. Mas não se furtou em falar sobre o assunto. Eu perguntei por que ele não fazia o DNA. José Alencar disse que só faria se tivesse uma prova testemunhal: uma foto; uma carta dele; ou alguém dizendo que tinha visto os dois juntos. Mas assim ele disse que era apenas o depoimento da moça.
DR – Na história do Brasil, o vice-presidente é um personagem que, não obstante, fica à sombra do presidente. José Alencar destoa dessa tradição? O que ele deixará de herança para o país?
Eliane – Ele foge dessa tradição porque manteve um pensamento muito próprio. Por exemplo, na luta dele sistemática contra os juros altos. Então ele manteve sua autonomia de pensamento e suas crenças na economia. E além de tudo, José Alencar é um homem suprapartidário. Ele não é um homem do PT, nem anti-PT. Então, tinha bom relacionamento, por exemplo, com Fernando Henrique Cardoso, que inclusive foi visitá-lo no hospital. José Alencar era capaz de, nas conversas, elogiar o José Serra que era tucano, ou Marina Silva, que era do PV. Mas sempre deixando claro, firmemente, que a candidata dele era a Dilma Rousseff do PT.
Você sabe que isso é uma característica dos vice-presidentes mineiros: o Itamar Franco não compactuou com aquilo que o Collor fez; o Aureliano Chaves não compactuou com as coisas todas do General Figueiredo. Os vices mineiros, apesar de ter uma cara boazinha, eles não são tão bonzinhos (risos).
O José Alencar deixará como legado ao país a imagem de que o vice não precisa ser engolido pelo presidente e pelo partido do presidente. Ele provou que se pode ter autonomia e que a crítica ajuda. Porque quando você critica não está sendo necessariamente destrutivo. Ao contrário, você pode estar querendo ser construtivo.
Eu acho que essa luta dele contra o câncer deixa uma marca muito profunda. Todos os médicos dizem que ele criou um novo paradigma na luta contra o câncer, na crença de que é possível sobreviver, lutar e suportar quimioterapia e outras coisas para ganhar sobrevida.
DR - Qual o principal traço de José Alencar?
Eliane – É impossível não falar da memória dele. Você viu que é a terceira vez que estou falando sobre isso, mas foi algo que me surpreendeu muito. Eu adoraria ter aquela memória. Lembrar tudo que aconteceu há vinte anos atrás com ricos detalhes. E o gosto dele pela vida. Eu tenho um sentimento positivo em relação à vida. Eu acredito que o ser humano tem uma vocação para ser feliz. Mas lamento que as pessoas estejam sempre sofrendo com coisas pequenas. E o José Alencar é uma pessoa muito positiva, que adora viver. Daí o título José Alencar – Amor à Vida.
DR – Pode se dizer que José Alencar dedicou a vida em favor do país?
Eliane – Ele é muito nacionalista, mas também é muito ambicioso do ponto de vista pessoal. Ambicioso no sentido de produzir, de querer fazer e de ter as melhores empresas. Então, ele foi um bom brasileiro. José Alencar ajudou o Brasil e o Brasil ajudou muito ele.
Fonte: Fernando de Oliveira / Diário Regional
Data: 29/03/2011
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