Em 11 de Setembro de 2001, o mundo presenciou o dia mais fatídico da história dos Estados Unidos. Naquela manhã de terça-feira, com céu azul e sem nuvens, 19 terroristas, sob ordens do então líder máximo da organização radical Al Qaeda, Osama bin Laden, sequestraram quatro aviões oriundos de diferentes aeroportos norte-americanos. Dois deles foram arremessados contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, localizado na ilha de Manhattan, em Nova York. O histórico conjunto de prédios virou pó pouco mais de uma hora depois.
Um terceiro avião foi guiado até a capital Washington e lançado contra o Pentágono, símbolo do poder bélico do país. E o quarto avião, cujo destino presume-se que seria o Capitólio ou a Casa Branca, caiu numa floresta do Estado da Pensilvânia – conforme comprovaram as gravações de uma das caixas-pretas do aparelho, a queda ocorreu devido a luta entre os passageiros e os extremistas.
Desde 1814, quando tropas britânicas bombardearam a Casa Branca, que os Estados Unidos não sofriam um ataque de tal magnitude em seu território. O saldo daquela tragédia, cuja primeira década será lembrada neste domingo: 2977 mortos, entre os quais os 19 terroristas. As consequências: a degradação das relações entre o Ocidente e os países muçulmanos e com isso o afunilamento da islamofobia; a “guerra contra o terror” promovida pelo presidente George W. Bush, que resultou nos conflitos no Afeganistão e no Iraque e na morte de 160.000 pessoas, entre militares e civis; tais guerras consumiram 1,2 trilhões de dólares dos cofres públicos norte-americanos (hoje esse valor chega a 14,3 trilhões de dólares), fato que originou, em 15 de Setembro de 2008, um colapso financeiro em Wall Street – ponto nevrálgico da economia norte-americana -, que rapidamente se espalhou pelo mundo e que ainda está em andamento nos cinco continentes.
Nesta entrevista exclusiva ao Diário Regional, por telefone, o doutor em Relações Internacionais e professor de história da Universidade de Brasília (UnB), Carlos Eduardo Vidigal, analisa as cicatrizes deixadas pelo mais letal atentado terrorista da história da humanidade.
DR - Qual o legado do 11 de Setembro de 2001?
Carlos Eduardo Vidigal – O impacto no mundo foi enorme, não tanto pelo atentado propriamente dito, mas mais pelas políticas norte-americanas desencadeadas até então. Houve não apenas a eleição do terrorismo internacional como principal adversário norte-americano como também ações políticas de grande relevância em outros lugares do mundo, como por exemplo a presença norte-americana no Afeganistão e no Iraque.
DR – Essas duas guerras, nas quais foram consumidos trilhões de dólares, resultaram na crise econômica de 2008, que se espalhou pelo mundo e persiste até agora?
Carlos Eduardo – Há uma certa relação, mas não há um processo direto. A questão é que o governo norte-americano tem gasto muitíssimo na presença externa do país, inclusive nesses dois conflitos. E com isso, a economia norte-americana tem, em parte, se ressentido desse processo. Agora a crise economica de 2008 tem razões outras, que não se relacionam com essa política ‘guerreira’ dos Estados Unidos.
DR – Os atentados também afunilaram a islamofobia.
Carlos Eduardo – Sim. Os grupos islâmicos residentes nos Estados Unidos sofreram muita perseguição e isso teve reflexo também em outras partes do mundo. E o governo norte-americano não fez um esforço para tão grande em demonstrar maior respeito à liberdade de expressão.
DR – Ao promover a “guerra contra o terror”, com a invasão do Afeganistão e do Iraque, que causou a morte de milhares de pessoas inocentes, o então presidente George W. Bush não teria tentado combater o terrorismo através do terrorismo?
Carlos Eduardo – Eu não tenho dúvida quanto a isso. E é uma prática bastante tradicional das potências ao longo da história. Agora, sem dúvida alguma os prejuízos humanos causados por essa reação norte-americana são enormes.
DR – Concorda que Bush deveria ser julgado por um tribunal internacional por crimes de guerra, como muitos defendem?
Carlos Eduardo – A possibilidade de Bush ser julgado praticamente não existe por uma razão muito simples: as instituições internacionais criadas a partir da 2ª Guerra Mundial foram construídas à luz dos interesses norte-americanos, em comum acordo com outras potências. E os EUA têm uma influência extraordinária nesses organismos. Então é impossível um julgamento como desses.
DR – Como o senhor avalia a situação do Oriente Médio pós-11 de Setembro?
Carlos Eduardo – O que eu considero mais importante das mudanças do Oriente Médio foi o reposicionamento que os EUA fizeram naquela região. Em 1979, os EUA perderam na área um importante aliado, que era o Irã, por causa da revolução iraniana. E com o 11 de Setembro, os EUA aproveitaram para se posicionar em duas fronteiras do Irã, que são respectivamento o Afeganistão e o Iraque, dentro da geopolítica do petróleo.
DR – O que pensa sobre a Primavera Árabe?
Carlos Eduardo – Eu gostaria de acreditar que essa Primavera Árabe sinalizasse no sentido da democracia e da liberdade de expressão dessas populações. Mas temos que analisar caso a caso. O que está ocorrendo na Líbia, por exemplo, é muito diferente do que ocorreu no Egito. Devemos aguardar para ver o desenrolar desses acontecimentos.
DR – Então o senhor acredita que a invasão norte-americana nesses países era necessária?
Carlos Eduardo – Necessária não. Era interessante para os negócios norte-americanos esse reposicionamento no Oriente Médio. O Iraque começava a fazer negócios não apenas com a França e com a Alemanha, mas também com China. Isso era motivo de preocupação por parte de Washington.
DR – Como o senhor interpreta a morte de Osama bin Laden?
Carlos Eduardo – A morte do Osama bin Laden é, sem dúvida alguma, uma vitória norte-americana e dá uma certa satisfação com relação ao 11 de Setembro. Também é uma sinalização para o que pode vir a ocorrer no futuro. Ou seja, os EUA continuará vigilante e agindo de maneira dura no combate ao terrorismo.
DR – Seu desaparecimento enfraquece o terrorismo?
Carlos Eduardo – Tecnicamente há substitutos. Mas dificilmente surgirá um outro líder islâmico fundamentalista envolvido nesses movimentos que tenha uma projeção internacional tão forte como a de Osama bin Laden.
DR – A revista Veja revelou, já faz alguns meses, que o Brasil tem servido de esconderijo para terroristas ligados a Al Qaeda. Como vê isso?
Carlos Eduardo – Se eles têm alguma função no Brasil, é para enviar recursos. E isso pessoas ligadas com esses grupos terroristas fazem em outros lugares do mundo. Então isso acontece em São Paulo, Nova York e Londres, por exemplo. Não vejo essa questão com grande preocupação.
DR – Decorridos dez anos dos atentados, os EUA surgem no cenário mundial mais enfraquecido e com seu status de potência abalado. Qual sua opinião?
Carlos Eduardo – Enfraquecido em partes, porque por outro lado, nesse momento de crise econômica, os investidores correm para os papéis norte-americanos e para o dólar, enfim. Se nós olharmos numa perspectiva de longo prazo, verificamos que desde as décadas de 60 e 70 surgem novos pólos de poder no mundo. Nesses últimos anos, a presença da China é o maior acontecimento e os EUA perdem poder relativo, mas continuam sendo o centro das decisões mundiais.
DR – A China se tornará, na próxima década, o centro do poder econômico e militar do mundo?
Carlos Eduardo – Militar provavelmente não. E a grande incógnita - e eu não arriscaria um palpite (risos) – é até que ponto esse desempenho econômico da China é sustentável num prazo mais longo.
DR – O presidente Barack Obama está sabendo lidar com as heranças do governo Bush?
Carlos Eduardo – Eu acho que ele tem conseguido administrar em parte a herança. Devemos observar também que muitas vezes ele age de acordo essa herança. Ele traiu muitas propostas de campanha: a prisão de Guantánamo é apenas um exemplo. Com isso, ele acabou se enfraquecendo.
DR – O fato de ter conseguido exterminar Osama bin Laden, favorece Obama na campanha à reeleição?
Carlos Eduardo – Fortalece, digamos, junto ao eleitor simpatizante dos Republicanos, mas o eleitor Democrata poderia ter alguns questionamentos, porque nesse caso ele agiu como Bush agiria.
DR – O senhor acredita em um novo 11 de Setembro?
Carlos Eduardo – Ações terroristas continuaram existindo. Já ações dessa magnitude são bastante raras, mas é possível que algo semelhante venha ocorrer no futuro. Acredito que os atentados serão lembrados no futuro, provavelmente, como o momento em que os Estados Unidos reforçaram a sua presença militar no mundo e geraram para o indivíduo comum uma série de constrangimento, notadamente nos EUA, quanto a liberdade de ir e vir, que ocorre nas fiscalizações dos aeroportos.
Fonte: Fernando de Oliveira / Diário Regional
Data: 09/09/2011
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