Ao aceitar o convite de Cassiano Gabus Mendes para escrever com ele a novela Meu Bem, Meu Mal, da TV Globo, em 1990, a jornalista e escritora Maria Adelaide Amaral abriu as portas para uma carreira brilhante na televisão brasileira.
De lá para cá, Adelaide consolidou-se como uma das mais importantes e aclamadas autoras da teledramaturgia do país, com trabalhos como as novelas A Próxima Vítima (1995) e Anjo Mau (1997) e as minisséries históricas Os Maias (2001), A Casa das Sete Mulheres (2003), Um Só Coração (2004) e JK (2006).
No início de janeiro, Adelaide levou à telinha Dercy de Verdade (Globo), microssérie sobre a trajetória de Dercy Gonçalves, adaptada da biografia que escreveu sobre a atriz em 1994, Dercy de Cabo a Rabo, relançada agora pela Editora Globo, numa edição revista e ampliada.
Nascida em Alfena, Portugal, em 1º de julho de 1942, mas radicada no Brasil desde os 12 anos, Maria Adelaide Amaral falou com exclusividade ao Diário Regional sobre a relação com Dercy Gonçalves (1907-2008), a carreira e projetos futuros.
Diário Regional - Vamos começar esta entrevista falando sobre Dercy Gonçalves. Como a conheceu?
Maria Adelaide Amaral - Conheci-a num almoço em sua homenagem na casa de Homero Kossak, um grande amigo de Dercy e em menos de 5 minutos ela me convidou para escrever sua biografia.
DR – E Dercy lhe impôs algum limite para a senhora escrever a biografia?
Adelaide - A Dercy não era de impor limites de liberdade a ninguém.
Diário Regional – Fale sobre sua relação com Dercy?
Adelaide - Eu tinha uma relação de muito respeito pela Dercy e ela me tratava como filha. Foi um privilégio conviver com uma grande atriz e talvez a maior comediante do teatro brasileiro.
DR - Como descreveria Dercy Gonçalves na intimidade, longe das telas?
Adelaide - Uma pessoa de princípios rígidos, só (embora estivesse sempre cercada de pessoas) e seu olhar emanava muitas vezes uma profunda tristeza.
DR – O deboche e o escracho foi o marketing de Dercy?
Adelaide - Foi exatamente isso que a distinguiu. A carreira da Dercy se fez com base no deboche e no escracho. Junto com os palavrões era esse seu marketing.
DR - Dercy deixou herdeiras na comédia?
Adelaide - Ela dizia que não, mas no fim da vida designou a Fafy Siqueira como a atriz que poderia personificá-la.
DR - Qual foi sua intenção ao realizar a microssérie Dercy de Verdade?
Adelaide - Proceder a seu resgate e à sua reparação.
DR - Foi difícil resumir os 101 anos de vida de Dercy em quatro capítulos?
Adelaide - É sempre difícil fazer um trabalho de síntese. Optei por pinçar os fatos mais relevantes da sua biografia. Aqueles que efetivamente mudaram sua vida e sua trajetória.
DR - Vamos falar sobre sua trajetória. Que tipo de educação recebeu?
Adelaide - Fiz ciências sociais (mas não completei) e jornalismo, além de incontáveis cursos sobre história da arte, arquitetura, teatro, arte contemporânea, etc. Trabalhei na Abril Cultural durante 20 anos onde pude aplicar meus conhecimentos e aprender muito mais. Minha obra de estreia no teatro foi A Resistência (1978). Para quem se interessar sobre minha biografia e minha carreira, sugiro Emoções Libertárias, que foi publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.
DR - Como começou a escrever?
Adelaide - Desde que fui alfabetizada escrevia poemas. Mas foi no teatro que me tornei quem sou.
DR - A senhora trabalhou 20 anos como pesquisadora na Editora Abril, escreveu peças de teatro de sucesso e um romance premiado com o Jabuti. Como começou a carreira na televisão?
Adelaide - Em 1990 o Cassiano Gabus Mendes me convidou para escrever com ele a novela Meu Bem, Meu Mal.
DR - A senhora considera o dramaturgo Silvio de Abreu “uma escola de teledramaturgia” e seu “mestre efetivo”. Fale um pouco sobre sua relação e trabalho com ele?
Adelaide - Mais que um amigo, o Sílvio foi um mentor. Foi ele que me estimulou a escrever a primeira novela, como titular, Anjo Mau, em 1997, e fez a supervisão. A partir daí minha carreira na TV deslanchou.
DR - Como é seu processo criativo e sua rotina de trabalho? Como escolhe os temas e qual a dificuldade de escrever para a TV?
Adelaide - Sempre escolho os temas. Às vezes de maneira bem intuitiva e aleatória, como foi o caso de a casa das sete mulheres, que sugeri sem ter lido o livro. Quando se trata de minisséries históricas, pesquiso longamente. Trabalhei dois anos em JK, por exemplo. Cada trabalho apresenta sua dificuldade, mas eu diria que a maior de todas é quando tenho que obter a autorização dos herdeiros. Como todo mundo sabe o Brasil é o país da biografia autorizada e nem sempre os herdeiros são esclarecidos e/ou generosos.
DR - A senhora já disse que “se precisar” escreve novela, “mas não com entusiasmo”. Por quê?
Adelaide - Claro que prefiro escrever minisséries porque elas têm mais o meu perfil, mas não posso me esquivar de fazer novelas quando necessário. E quando o faço, procuro extrair o máximo prazer dessa experiência.
DR – Qual o papel da teledramaturgia?
Adelaide - Entreter, informar, estimular.
DR - A telenovela passa hoje, segundo especialistas, por uma crise de criatividade. Afirmam que “a telenovela se preocupa com a nova classe média”...
Adelaide - Como é que alguém pode dizer que a novela atravessa uma crise de criatividade depois de assistir Cordel Encantado e A Vida da Gente?
DR - O que mudou no modo de fazer teledramaturgia desde que a senhora começou a trabalhar na TV?
Adelaide - Os capítulos ficaram mais longos, mais complexos e aumentou o número de personagens.
DR – A senhora nasceu em Portugal. Como é sua relação com sua pátria de origem?
Adelaide - Tenho um irmão e uma cunhada que ainda moram lá, alguns amigos, parentes distantes. Gosto muito da literatura, me emociono ao ouvir um fado, acho o país lindo. Porém, me sinto afetiva e culturalmente mais ligada ao Brasil e a São Paulo, cidade que me acolheu e que adoro. Apesar dos seus problemas.
DR - Quanto da cultura portuguesa há em seus trabalhos?
Adelaide - Acho que não sei avaliar, mas uma jornalista portuguesa me disse em 1993 a propósito do romance Luísa, que havia uma melancolia profundamente lusitana na minha literatura.
DR - A propósito, qual sua visão sobre a crise que castiga Portugal?
Adelaide - Lamento muito sobretudo pelo número de desempregados.
DR - Faz tempo que a senhora não escreve literatura. Projeta retomar a carreira de romancista?
Adelaide - A televisão não me dá o tempo necessário. Mas está nos meus planos voltar a escrever teatro.
DR - Quais são seus próximos projetos na televisão?
Adelaide - Vou escrever uma novela das sete em 2013 e espero me divertir tanto, quanto me diverti fazendo TiTiTi.
Fonte: Fernando de Oliveira / Diário Regional
Data: 25/01/2012
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