Famoso por sua atuação em O Silêncio dos Inocentes, que lhe valeu o Oscar de melhor ator pela interpretação do psicopata Hannibal Lecter, o britânico Anthony Hopkins fala nesta entrevista sobre seu álbum Composer, disponível em CD e MP3.
Guardian - De quem foi a ideia de lançar um CD de sua música?
Anthony Hopkins - Passei minha vida toda compondo música. Se eu tivesse sido inteligente o suficiente na escola, teria gostado de fazer faculdade de música. Mas tive que me contentar em ser ator. Foi ideia de Stella (sua terceira esposa, mas, como ele observou, “o que isso tem a ver com minha música?”) reunir todas as partituras que estavam juntando poeira em gavetas espalhadas pela casa e enviá-las. E elas foram tocadas pela Orquestra Sinfônica de Dallas, outras pessoas deram notícia, e por fim elas foram gravadas pela Orquestra Sinfônica de Birmingham.
Guardian - Você temeu que sua música estivesse sendo tocada em função de quem você é, e não dos próprios méritos da música?
Hopkins - Não posso responder. Não sei. O que você acha?
Guardian - Você queria reger sua própria música?
Hopkins - Era esse o plano, originalmente. Mas então eu caí no banheiro de um hotel em Viena e quebrei meu tornozelo, de modo que não podia ficar em pé por muito tempo. Mas deve ter sido melhor assim.
Guardian - Que tipo de regente você seria?
Hopkins - Um regente que soubesse os nomes de cada integrante da orquestra e cujo conselho principal seria que todos terminassem a música juntos, dentro do tempo. Um regente não pode ser muito arrogante com a orquestra, tentar se impor demais. É preciso haver confiança e respeito mútuos.
A mesma coisa se aplica a diretores de cinema. Não suporto diretores que tentam controlar cada aspecto de tudo. Quando isso acontece hoje em dia, eu simplesmente abandono o set e digo que, se não estiverem gostando do jeito que estou fazendo, que procurem outra pessoa.
A vida é curta demais para termos que lidar com as inseguranças dos outros.
Guardian - E seu sucesso Distant Star, que chegou à 75ª posição na parada de singles do Reino Unido em 1986?
Hopkins - Meu Deus. Não lembro de muita coisa sobre essa música, exceto que não era muito boa (declama alguns versos) e que fui convencido a fazê-la numa noite de domingo, em Weybridge, por um produtor de discos. Acho que ainda não me pagaram.
Guardian - Você conhecia bem Richard Burton?
Hopkins - Não sei de onde todo o mundo tira a ideia de que éramos bons amigos. Deve ser porque ambos somos do País de Gales e passamos nossa infância nos arredores da mesma cidade (Port Talbot). Para que fique claro, eu praticamente não o conhecia. Uma vez fui à casa da irmã dele para pedir um autógrafo, que ele me deu, e a única outra vez em que o vi foi em seu camarim em Nova York quando ele estava atuando em Equus.
Guardian - Por que você se mudou para os Estados Unidos?
Hopkins - Muita gente fala de Londres como se tivesse sido o coração dos “swinging 60s”. Para mim, não foi. O que eu me lembro é da neblina cinzenta que cobria a Waterloo Road nas tardes de quarta-feira. Era tão deprimente que me mudei para a terra do Pato Donald.
Guardian - Desculpe, pareceu importante na época. Qual você considera ter sido sua maior conquista?
Hopkins - Hoje em dia, tudo se funde mais ou menos em uma coisa só.
Foi muito agradável receber um Oscar, mas hoje ele simplesmente está enferrujando e ficando manchado na prateleira ao lado da TV. Não dá para levar nada disso muito a sério.
A morte chega para todos nós. Não faz muito tempo eu estava no cemitério de Arlington, ao lado do túmulo de John Kennedy, e pensei sobre como os grandes anos de sua Presidência foram varridos para o longe, como cinzas ao vento. Nada tem importância real, e esse fato nos traz paz.
Fonte: John Crace / Guardian
Data: 06/02/2012
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