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Liberdade: sentimento infinito X realidade possível


Muitos até têm dúvidas se é mais importante viver ou ser livre. Há quem pague com sua própria vida o preço da liberdade. Liberdade é um dos maiores enigmas da humanidade. A mente humana, desde os primórdios, procurou desvendar os mistérios que cercam o sentimento do qual todos compartilham em algum grau, embora, por vezes, muito confuso e contraditório.

 

Todos sonham em um dia alcançar a liberdade plena. Ser livre sem medida, ou melhor, liberdade acima de qualquer coisa, para além de qualquer condição. Liberdade conota um sentimento de bem-estar, de prazer, de potência. Enquanto livre, posso fazer isso, aquilo e tudo mais... Por isso, busca-se a liberdade sem medidas, sem limites...

 

Mas nem tudo se resume à subjetividade, ao mundo que está em nossas mãos e em nosso coração. O sentimento é infinito, mas precisa de uma realidade objetiva para poder se efetivar. O sentimento de liberdade só se completa quando se encontra realizado no mundo da existência. Há que se ter coerência entre o sentimento de liberdade e a possibilidade de levá-lo à existência.

 


Liberdade e autonomia. O conceito de liberdade indica a possibilidade de uma pessoa, ou outro ser, fazer algo sem o impedimento do mundo externo. Assim, liberdade pressupõe autonomia e consciência. Deve ser uma escolha autônoma, portanto, que parta de um sujeito que decide a partir de si mesmo. No entanto, para que se possa decidir por si, esse sujeito deve se limitar às condições impostas pelo universo em que ele habita, às condições objetivas que possam efetivar aquilo que ele deseja. Liberdade pressupõe que o sujeito possa determinar a si mesmo, assim sendo, ser autônomo, livre do condicionamento externo. Liberdade equivale à autodeterminação, implica consciência. Assim ensinou Kant. Ainda, esse filósofo mostra que o princípio da liberdade deve ser universal, que valha da mesma forma para todos. Logo, antes de desejar algo em nome da liberdade, deve-se verificar se isso é possível para todos. O princípio da liberdade coloca todos os seres humanos nas mesmas condições.

 

O sentimento de liberdade alcança sua plena realização na medida em que encontra eco na realidade objetiva, onde a liberdade possa se tornar real. Assim, Hegel nos ensinou que o conceito de liberdade só é consistente se ele conjugar liberdade com a necessidade.

 

Não há liberdade sem limites internos e externos. Todas as conquistas possíveis acontecem concomitantes às restrições. A opção por algo, um direito, implica sempre uma restrição de outras coisas. Ser livre, afirma Hegel, é ao mesmo tempo limitar-se. Assim, não basta um sentimento de liberdade, se esse desejo não puder se realizar. Liberdade remete sempre ao mundo da existência objetiva. Mas isso traz o preço de que o desejo sempre está circunscrito por limites.
 

Liberdade implica o conhecimento desses limites. Agir a partir desse contexto, não contra o mesmo.

 


Somente quem é livre pode ser feliz de verdade. A felicidade plena do ser humano implica, entre outras coisas, que o homem seja livre. Da mesma forma, ninguém é livre sozinho, como não é feliz sozinho, porque o ser humano é um ser social. Não se deve confundir nunca liberdade com libertinagem. Libertinagem é o sentimento de poder fazer tudo que se quer, sem compromisso com o universo em que se vive, nem com as demais pessoas envolvidas pelos efeitos da ação proposta. Quem acha que tem o mundo em suas mãos, é doente, mas jamais livre. Liberdade, corretamente compreendida, nunca é demais e nunca prejudica àlguém, apenas fazem mal as formas equivocadas ações praticadas em nome da liberdade. Liberdade efetiva sempre implica o respeito e bem-estar de todos os envolvidos na ação.

 

É importante que todas as pessoas busquem a liberdade plena, acima de qualquer condição de cor ou sexo, independente também da condição social e econômica. Cada ser humano deve buscar sua felicidade, entendendo que ela fica mais próxima quando se tem uma apurada sensibilidade do público e coletivo.

 

Quanto mais se conhece e respeita o universo em que se vive, melhores condições se têm para alcançar a liberdade.
 

 

Emanuel Kant nasceu em Königsberg, Prússia, 22 de abril de 1724. É considerado o maior filósofo da época moderna. Faleceu em 1804.

 

Jorge Guilherme Frederico Hegel nasceu em Stutgart, em 1770. Faleceu em 1831, vítima de cólera.

Fonte: João Miguel Back / Diário Regional

Data: 05/07/2010


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