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“A cidade foi construída pelo povo e não pelos políticos”

Recuperando-se de uma cirurgia, que acertou os ponteiros do coração, ele que foi prefeito por dois mandatos em Santa Cruz do Sul, atravessou décadas e viu a cidade se desenvolver, comenta sua época e a política atual e ainda dá seus palpites para a eleição de 2010 com exclusividade para o Diário Regional.

 

Filho de imigrantes alemães, nascido no interior da então pequena Santa Cruz do Sul, Arno João Frantz é referência quando o assunto é política. "Foi uma vida de muitas vitórias, mas também com alguns desamores", recorda Arno. Prestes a completar 88 anos, nos altos da Ramiro Barcelos, ele vê a cidade totalmente transformada de quando foi prefeito pela primeira vez, em 1977. "Na época, perto do Country Clube não tinha energia elétrica", revisita o ex-prefeito.

 

"Eu não nasci em berço político, mas foi vendo como os políticos da década de 20 e de 30 trabalhavam, que eu me interessei por ela", conta Arno, ao dizer que sua formação é em contabilidade, área um tanto quanto distante da ciência política.

 

Durante a "Era Vargas", no fim dos anos 30 e na década de 1940, por conta do regime imposto pelo caudilho, Arno diz que se manteve no interior. Mudando-se depois para o centro. "Nós viemos para a cidade, onde tinha um armazém, eu e a minha esposa", recorda, ao dizer que foi da "colônia" que ele trouxe a sabedoria para administrar.

 

 

Prefeito, duas vezes

 

Eleito prefeito pela primeira vez em 1977, Arno diz que ficou no poder durante seis anos, por conta do Regime Militar que ainda estava em vigor no país. "Foram dois anos a mais, até 1982". Segundo ele, essa foi a época em que o investimento do capital estrangeiro alavancou Santa Cruz. "Mas foi com a força do trabalho da comunidade que erguemos essa cidade", reforça. De acordo com o ex-prefeito, a Igreja Católica e Evangélica Luterana contribuíram também para o desenvolvimento, principalmente no interior do município, que tinha o dobro do território que hoje ocupa. Depois do mandato, Arno foi prefeito novamente de 1988 a 1992. "Se eu pudesse voltar 20 anos no tempo, seria candidato de novo", brinca. "Já dei a minha contribuição".

 

 

A derrota em 1996

 

Depois de ser suplente e Deputado Estadual, Arno Frantz retorna a Santa Cruz em 1996, para dar continuidade ao trabalho desenvolvido pelo partido. Contudo, esse foi um momento não muito feliz na vida do político. "Eu concorri porque não tinha ninguém, aí disseram vai o Arno Frantz", brinca.

 

Ainda assim, Arno não conseguiu retornar à Prefeitura. E foi alvo de boatos e brincadeiras. "Na época diziam que eu tinha um câncer. A única vez na vida que me colocaram uma 'faca' foi há 15 dias atrás", ressalta, ao destacar que diziam na cidade que ele teria, no máximo, três meses de vida.

 

Na eleição, comparado pelo adversário e não inimigo – pois segundo ele, o político não deve ter inimigos – com um "liquidificador velho", Arno sorri: "Eu nem me lembrava mais dessa piada", brinca. Ressaltando o respeito aos adversários, Arno Frantz conta que perdeu sim para Sérgio Moraes as eleições, mas não fez inimizades por isso e não deixou de ser o mesmo político de sempre. Sobre a situação do adversário, que aguarda uma decisão da justiça para confirmar sua candidatura a deputado federal, Arno Frantz prefere não falar. "Passou, como disse, não tenho inimigos. Mas tudo o que está sendo noticiado pode impugnar a campanha dele".
 

 

Antigamente a ficha também tinha que ser limpa

 

Questionado a respeito da aprovação da lei que impede a eleição de candidatos com "passado nebuloso", Arno Frantz conta que na época em que concorrera, a exigência já existia.  "Há 25 anos atrás, se o político tinha processos, não podia concorrer", atualmente, ele diz não saber o que vale e o que não vale, porque, segundo ele, existem processos que depois de 20 anos prescrevem. "Não vejo muita novidade nessa nova lei".

 

 

Apostas de Frantz

 

Para dar um comentário com embasamento, Arno diz que precisa ver os candidatos "no palanque", mas arrisca alguns palpites. Segundo ele, se Dilma Rousseff seguir os passos de Lula, ela tem grandes chances de assumir como a presidente do Brasil. "O Lula que vai definir quem será o novo presidente". Mas com uma ressalva, depende do desempenho dela nos grandes colégios eleitorais, que segundo o político são o Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo.

 

Já no Rio Grande do Sul, as apostas do ex-prefeito ficam entre Fogaça e Yeda, no segundo turno. "A Yeda demonstrou o que os outros nunca tiveram coragem de fazer", diz Frantz. "A maior herança dela foi à oposição ferrenha do PT. Mas eu acredito que ela e o Fogaça devem ir ao segundo turno, pois a política nacional do PT prejudicou o Rio Grande do Sul".

 

 

Não existiam acordos

 

Ao comparar a política de sua época com a atualidade, Arno Frantz é categórico em um comportamento que não existia tempos atrás: as coligações partidárias. “Éramos em torno de cinco partidos e essas alianças, que hoje se fazem, não existiam”, completa. “Como é que eu vou criticar o governo se meu partido tem Senadores nesse governo” – questiona, ao dizer que esse comportamento sinaliza para acordos e interesses financeiros, ou no termo mais usado hoje, “compadrio”.

Fonte: Rodrigo Nascimento / Diário Regional

Data: 02/08/2010


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