O escritor e tradutor Daniel Galera, nascido em São Paulo, mas cidadão porto-alegrense desde a infância, é um dos mais celebrados autores da literatura nacional contemporânea. Com apenas 31 anos, já tem algumas proezas no mundo literário: é um dos fundadores da extinta editora Livros do Mal, que foi referência em matéria de autores estreantes; pioneiro no uso da internet para a divulgação da (sua) literatura; traduziu para o português nomes como Jonathan Safran Foer, Robert Crumb e Irvine Welsh. Além disso, seu romance ambientado em Porto Alegre, “Até o dia em que o cão morreu”, foi adaptado para o teatro por Mário Bertolotto, e para o cinema pelo prestigiado cineasta Beto Brant. Portanto, versatilidade e intensidade são palavras que definem este jovem escritor.
Apreciador da literatura de Sérgio Santana, Hilda Hilst e João Gilberto Noll, a de Julio Cortazar, Cormac MacCarthy e David Foster Wallace, Galera conversou na tarde de quarta-feira, por telefone, de Porto Alegre, com a reportagem do Diário Regional. Ontem, ele pisou em solo santa-cruzense pela primeira vez para participar, como convidado, da 23ª Feira do Livro. A seguir, uma síntese de nossa prosa:
Diário Regional – O que a literatura representa para você?
Daniel Galera - A literatura é uma forma importante para me relacionar com o mundo. Ela está entranhada no meu dia a dia. É um prazer.
DR – Você se considera um escritor experimental?
Galera – Não acredito que sou um escritor particularmente experimental. Tem muitos escritores que acham minha literatura muito conservadora. Busco sempre a melhor forma e o melhor estilo para contar a história que fiquei com vontade de contar. Não tenho interesse em ser experimental.
DR – Você passou boa parte de sua vida em Porto Alegre, e a cidade tem sido o cenário para algumas de suas histórias, portanto, a Capital lhe instiga a escrever?
Galera – Em Porto Alegre passei muitos momentos importantes. É uma cidade que me impressiona. Por isso, é natural que eu tenha vontade de escrever sobre ela e situar minhas histórias nela.
DR – O mercado de Histórias em Quadrinhos está crescendo no Brasil?
Galera - O mercado dos HQS sempre foi saudável, principalmente pelos quadrinhos infantis e de heróis. Claro que não dá para comparar o mercado brasileiro com o norte-americano e europeu. Mas há uns cinco anos estão surgindo quadrinhos novos e graphic novels. E o melhor disso é que estão surgindo autores brasileiros.
DR – A internet é rival do livro?
Galera - O livro não vai terminar por causa da internet. Acredito que é um novo campo para discutir a literatura, e até em certa medida para a publicação. Pelo contrário, pela internet as pessoas indicam muitos livros umas para as outras de autores que não conheciam antes, e isso cedo ou tarde faz com que busquem mais autores.
“O tradutor é um pouco marginal”
Em seu famoso livro “Cidadão Kane e outros ensaios”, de 1971, a ferina crítica de cinema norte-americana Paulina Kael (1919 – 2001) dedicou algumas páginas para discutir a importância do roteirista no cinema – no caso Herman Manckiewicz e o script do filme de Orson Welles -, cargo ao qual atribui a verdadeira autoria de um filme. Embora sejam funções distintas, caso semelhante ocorre com o tradutor literário que fica à sombra do autor do livro.
Para Daniel Galera, a figura do tradutor é essencial. Porém, como diz, quando se folheia uma obra traduzida, na maioria das vezes o nome do tradutor está grafado de um modo que passa despercebido. “Acho que o tradutor é uma figura ainda um pouco marginal no mercado literário. Digo isso no sentido de que é pouco lembrado e valorizado”, protesta Galera. “Muitos leitores não estão nem um pouco preocupados com quem traduziu o livro ou que tipo de tradução foi feita. Enfim, é saudável o leitor criar o hábito de conhecer mais o tradutores que estão atuando e atentar para a qualidade da tradução”, completa.
Segundo Galera, que já verteu nomes importantes da literatura para o português como Hunter S. Thompson e seu “Reino do Medo”, e atualmente trabalha num livro do norte-americano Douglas Martin, “a maioria dos próprios escritores reconhecem que o tradutor tem uma importância essencial para o livro traduzido”. Um dos mais delicados processos da tradução diz respeito à idiossincrasia do autor, pois, se mal interpretada, corre-se o risco de distorcer a essência da obra, afirma Galera. “Por isso o livro tem que ser reescrito de certa forma. Tem de fazer sentido, ficar legível e fluente”, diz.
O quê: livro “Cachalote” de Daniel Galera e Rafael Coutinho (editora Cia das Letras; 280 págs)
Quanto: R$ 45,00 reais.
Onde comprar: Iluminura Livraria e Cafeteria
Em “Cachalote” são narradas seis tramas amarradas por temas e subtextos recorrentes, tais como o confronto dos personagens com acontecimentos drásticos ou misteriosos que transformam suas vidas, a conciliação da vida com a arte e a tentativa de preservar o afeto e o amor em relacionamentos ameaçados por circunstâncias adversas.
Fonte: Fernando de Oliveira / Diário Regional
Data: 02/09/2010





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