Nesta sexta-feira, 3, foi a vez do festejado escritor gaúcho Altair Martins destilar seu conhecimento literário pela 23ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul. Bacharel, em Letras e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) - instituição na qual leciona -, ele se junta ao rol dos outros escritores de destaque que passaram por aqui nesta semana como João Ubaldo Ribeiro - patrono do evento -, e Daniel Galera, escritor paulista, mas radicado em Porto Alegre. No fim da tarde, Altair concedeu uma entrevista à imprensa na Iluminura Livraria e Cafeteria. O local da prosa, por sinal, era familiar, como ele mesmo apontou: “Claro, dei aula aqui”, comenta, referindo-se ao segundo piso do prédio, onde outrora ficava o Colégio Mauá e onde ministrou aulas de cursinho pré-vestibular.
Altair está entre os poucos autores que podem se orgulhar de ter conquistado um prêmio pela obra de estreia. Em questão, a antologia de contos “Como se fosse ferro”. O livro, publicado em 1999, faturou através do conto que dá título a obra, o “Prêmio Guimarães Rosa”, concedido pela Radio France International. Mas esse sucesso logo na largada é defendido por Altair como uma consideração a seu esforço. “Posso dizer que sou merecedor desse prêmio pela batalha que tive para conseguir fazê-lo”, diz ele que começou sua carreira por meio do conto.
Apontado por muitos como o mais original dos escritores nacionais contemporâneos, passou da narrativa curta à longa com o livro “A Parede no Escuro”. Na estreia no romance, mais um prêmio de autor estreante: o São Paulo de Literatura, tido como o mais prestigiado na esfera literária nacional. Mais uma no currículo. No entanto, essa experiência inicial com a narrativa longa foi difícil, segundo Altair. “O contista escreve melhor que o romancista”, afirma Altair. Por isso, acrescenta que vai “intercalar os dois gêneros”.
Entretanto, este autor de renome não tinha livros na casa onde morava com a família, em Guaíba. Era humilde. Porém, tinha uma alternativa à carência: “devorar a biblioteca da cidade”. Hoje, faz questão de dizer que descobrir o universo infinito da literatura foi o que de melhor lhe aconteceu. “Sempre encarei o estudo como minha saída. Minha tábua de salvação. Tudo que sei sobre literatura devo à sala de aula”, destaca.
A imagem: o capital de sua obra
Antes da literatura, a pintura e a charge foram os meios de expressão de Altair Martins. Daí o porquê de sua obra enfatizar tanto a imagem – em minuciosas descrições das cenas. Esse estilo perpassa seus contos, com destaque para “A Imagem”, até seu romance “A Parede no Escuro”. Pode-se dizer, sobretudo, que é um método intrínseco ao modo como trabalha a linguagem. Para Altair, isso tem uma explicação: a visão é seu primeiro sentido. “Vários contos eu escrevi baseados na pintura”, revela.
Estudioso, no entanto, da Teoria Literária, uma vez que é professor universitário, Altair vê na “imagem atrelada ao texto” a salvação da literatura. Sobretudo porque defende a concepção de que a literatura é a arte da visibilidade. “Vivemos numa era visual, então, a literatura tem que usar isso em favor dela. E não se render simplesmente”, ressalta. “Acho que é o visual que pode salvar a leitura atualmente”, conclui.
Dois livros a caminho
Altair revela que atualmente está trabalhando em dois livros. Com previsão de lançamento para 2011, “Enquanto Água” é seu retorno aos contos e é resultado do doutorado que finaliza na UFRGS. Segundo ele, “fala sobre arroios, tempestades, remar de caiaque, sobre a atmosfera, o medo e o fascínio da água”, adianta. O outro, um romance baseado na viagem que fez à Nicarágua, o escritor pretende lançar em 2013. Ele inclusive disse que carrega os manuscritos aonde vai para dar uma “rabiscada” de vez em quando.
Quanto a essa obra, apenas afirma que a “imagem” será novamente enfatizada. “Esse romance vai seguir a linha dos outros. É todo pictórico. A imagem acima de tudo”.
Fonte: Fernando de Oliveira / Diário Regional
Data: 04/09/2010
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